17 maio 2013

A "INTERIORIZAÇÃO" DA SEGURANÇA DO TRABALHO

A profissão de Técnico em Segurança do Trabalho segue
em alta no mercado 

Enquanto esta semana o Conselho Federal de Medicina se contrapõe às ações do governo em buscar fora do país os médicos de que tanto necessita para interiorizar a saúde pública, trato de ver o mesmo assunto pela ótica da segurança do trabalho. Até porque, constantemente alunos e alunas me questionam sobre as oportunidades de trabalho na profissão. Minha experiência em termos de oportunidades me garantem que essa profissão continua “bombando”, pra usar uma expressão bem atual.

Mas alguns alunos duvidam e se mostram incrédulos diante da minha afirmação. Só pra se ter uma ideia, o que acontece com a segurança do trabalho é o mesmo que acontece com outras profissões técnicas. As empresas tem ofertado muitas oportunidades, até porque a legislação tem se mostrado cada vez mais exigente e os órgãos de fiscalização intensificam suas ações, impulsionados pelas cobranças da sociedade e principalmente quando se mobiliza depois de tragédias como a de Santa Maria. Mas, da mesmo forma que em outras áreas, há profissionais que deixam as escolas com algumas carências em termos de conhecimento. Com isso não quero responsabilizar escolas e professores, até porque também estou envolvido nesta tarefa de formação.
O interior dos Estados possui demandas para a
profissão prevencionista

Uma das disciplinas que ministro nestes cursos é introdutória aos Riscos Ambientais, preparando-os para o entendimento e a elaboração do PPRA – Programa de Prevenção de Riscos Ambientais posteriormente. Como são alunos e alunas que estão estreando na carreira prevencionista, costumo chamar a atenção para o curto tempo de um ano e meio na formação de um profissional em segurança do trabalho. Saliento o quanto é primordial que não deixem somente ao professor a responsabilidade de buscar o conhecimento, mas que também sejam protagonistas desta formação, criando habilidades e competências através da dedicação às leituras técnicas e o despertar da curiosidade, embora eu creia que a nós docentes cabe esta última tarefa. Eça de Queiroz, escritor português de grande expressão, autor de obras como “Os Maias”, costumava dizer que “a curiosidade, instinto de complexidade infinita, leva por um lado a escutar atrás das portas e por outro a descobrir a América.” Talvez seja isso que se espera de nossos alunos e alunas, que ao despertarem a curiosidade a respeito dos temas prevencionistas possam se capacitar para as inúmeras oportunidades oferecidas pelo mercado de trabalho. E disso eu não tenho nenhuma dúvida, pois a curiosidade faz com que busquemos incessantemente respostas para nossas suspeitas da verdade.

Mas, similar à questão dos médicos, que tomei como mote inicial desta edição, muitas oportunidades estão a disposição dos recém formados profissionais no interior dos Estados. E falo “dos Estados” porque isso ocorre não somente aqui no Rio Grande do Sul, mas em outros também. Tenho observado a oferta de vagas em longínquas paragens, e sem candidatos que as preencham. Tal como Juscelino Kubsticheck interiorizou o desenvolvimento do país ao encravar a nova capital em pleno cerrado brasileiro, é necessário que busquemos estas oportunidades e “interiorizemos” a segurança do trabalho.
 
Claudio Neto aceitou o desafio de "interiorizar" seu estágio
Um de meus alunos, há cerca de quatro anos atrás, quando todos os colegas prospectavam estágio próximo à capital, evitando deixar o conforto da cidade grande, se propôs a realizar seu estágio numa cidade a mais ou menos seiscentos quilômetros de casa. Foi aprender a profissão na prática em um canteiro de obras na Usina de Machadinho, uma hidrelétrica em construção na divisa entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. E foi com a cara e a coragem. Me procurou na Escola e disse: “Professor Jairo! Será que tu podes acompanhar este meu estágio?”. Notei em seus olhos um brilho diferente, do tipo de quem está catalisado por um desafio. Na época eu acompanhava alguns alunos em estágio e propus que o acompanhasse à distancia, via Skype, já que seria impossível viajar duas vezes por mês para a localidade. Todavia, ele visitava sua casa uma vez por mês na capital. Então, combinei com ele que, nesta oportunidade, deveria me trazer um relatório das atividades, e com a assinatura do Técnico em Segurança do Trabalho da Construtora, para que nos reuníssemos e discutíssemos detalhes do aprendizado. Também disponibilizei meu telefone para que fizesse contato em qualquer momento que fosse necessário. O estágio foi um sucesso, e hoje este ex-aluno é um destacado profissional em empresa da região metropolitana. Ou seja, tivemos ali uma experiencia de "interiorização" do estágio.

Portanto, o desafio está lançado! São inúmeras oportunidades de trabalho que se apresentam pelo interior do Brasil afora. Você que está em vias de se tornar mais um profissional da área, não tem interesse em fazer parte desta “interiorização” da segurança do trabalho? Ou também vamos esperar que as empresas busquem fora do país estes profissionais, para que depois se mobilizem as representações de classe, de forma a evitar esta importação? 

10 maio 2013

A SALA DE AULA MORREU?


Esta foi para mim uma semana cheia. Estive envolvido em tantas atividades que quando me dei por conta a sexta-feira já amanhecia. Aulas nas Escolas Técnicas, elaboração de orçamentos para demandas de empresas daqui e de fora do Estado, envio de mailling para empresas da regi!ão metropolitana e atendimento de consultorias. Houve momentos em que ansiei pelo dia com mais de vinte quatro horas para conseguir dar conta de tudo.  
Essa é a pergunta que temos feito com frequencia


Alheio aos escândalos que se multiplicam na terra de Sepé Tiaraju, por vezes as licenças ambientais, em outras o "leite compen$ado", escolhi novamente a educação como tema desta edição. E minha inspiração surgiu a partir de uma notícia trazida por artigo do jornalista Gilberto Dimenstein. Formado na Faculdade Casper Libero, Dimenstein é colunista da Folha de São Paulo e comentarista da Rádio CBN. Foi diretor da Folha de São Paulo em Brasilia e correspondente internacional em Nova Iorque. Trabalhou ainda no Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Última Hora, revistas Visão e Veja.  Possui 12 obras escritas, das quais "O Cidadão de Papel" foi uma que pude desfrutar. Trata dos direitos da criança e do adolescente e sua aplicação na sociedade brasileira.  

Dizia ele num artigo da Folha de São Paulo do dia 30 de abril último: “Já não há dúvidas de que a educação do futuro estará em algum lugar entre o ensino presencial e virtual”. Fazia referencia ao portal da Unicamp (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gilbertodimenstein/1271005-estude-na-unicamp-sem-vestibular.shtml), que neste mês de abril inaugurou suas aulas virtuais de forma gratuita, no mesmo modelo praticado há tempo por universidades dos Estados Unidos e da Europa.
Dimenstein: "A sala de aula como a conhecemos morreu!"

Tenho acompanhado estes portais internacionais e inclusive frequentei algumas aulas virtuais da Universidade de Stanford e Universidade da Pensilvania. Os vídeos são ótimos e os assuntos bastante instigantes. Também explorei rapidamente alguns cursos livres disponíveis pela Universidade de Harvard e Universidade do Texas. O acesso pode ser feito através dos endereços www.coursera.org e www.edx.org. Como preconiza o portal edx em seu acesso inicial, pode-se observar que as aulas são “para qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer hora”. Ah! E os professores que aparecem nos vídeos são aqueles mesmos que fazem sucesso na sala de aula. 

E ao final de seu artigo na Folha de São Paulo, Dimenstein radicalizou: “O fato é que, gostem ou não, a sala de aula como a conhecemos morreu – só ainda não foi enterrada.” A afirmativa é bastante provocadora, pois mexe com os brios de todos nós educadores, que nos debatemos para entender o que está ocorrendo com a educação da atualidade. Eu também, com apenas 11 anos de prática docente, e que acho insuficiente pela complexidade da ciência educadora, tenho me perguntado: “Que passa?”, como dizem nosso “hermanos”. Porque a sala de aula está tão diferente daquela que conheci tempo atrás? Também não sei responder.

As universidades dos Estados Unidos e da Europa oferecem
aulas para qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer hora
Há momentos em que não sei como agir em sala de aula. Vez por outra tem sido difícil catalisar o interesse discente com as estratégias utilizadas. Não consigo disfarçar a irritação quando estou desenvolvendo um assunto e me deparo com aluno teclando um telefone móvel inteiramente alienado ao que lhe cerca. Conto até dez para não “perder a estribeira”. Mas também tenho reconhecido o quanto se pode tirar proveito de algumas ferramentas modernas de comunicação. Outro dia, em meu escritório, conversava no Facebook com uma ex-aluna que me pedia orientação sobre “investigação de acidentes” e, ao mesmo tempo, acompanhava uma conferencia entre membros de um grupo de discussões em segurança do trabalho na mesma. Fiquei impressionado com a rapidez da conversa e da troca de materiais entre os participantes. Uma destas pessoas possuía dificuldade em desenvolver um programa de prevenção. De imediato, dois membros se dispuseram a ajudá-la. Um deles enviou-lhe um modelo de formulário “em anexo” para “download”, enquanto outro lhe convidava para falar “in off” e agilizar a ajuda.

Agora imaginem: as três pessoas estavam a distancias quilométricas e interagindo como se conversassem numa mesa de reuniões. Pensei um pouco e notei que ali havia uso de escrita, de imagem, de texto, e de muito conteúdo. E o aprendizado? Certamente todos os envolvidos puderam acumular mais conhecimento nesta troca.
 
Os grupos de discussões do Facebook facilitam as trocas de conhecimento
Prá não ficar somente num exemplo, posso lhes contar um outro momento em que fui acometido de risadas homéricas em frente ao notebook. Estava olhando as postagens feitas por conhecidos no Facebook, e pude observar uma imagem postada por um dos membros deste mesmo grupo, onde aparecia um trabalhador na labuta, sem qualquer tipo de proteção e calçando “chinelos de dedos”. Perguntava a aluna que havia postado a imagem para todos os membros: “O que devemos fazer para conscientizar um trabalhador com este tipo de comportamento?”. Então me fiz curioso em saber as respostas trazidas pelos demais membros. Já na primeira resposta fui tomado por um acesso de risos. Dizia o respondedor numa sacada brilhante: “Pede prá ele qual o CA (Certificado de Aprovação) desta chinelinha que está usando.”

Por isso tudo: pelo artigo na Folha de São Paulo e pela afirmativa radical do Gilberto Dimenstein, pela utilização do telefone móvel em plena sala de aula e pelo uso cada vez mais intenso das mídias sociais sob a forma de conferencias, e ainda pelas trocas de conhecimento constatadas ali, talvez eu não possua argumentação suficiente para discordar. Tenho a impressão de que a sala de aula como a conhecemos está realmente agonizando. E para essa transformação eu não tenho explicações até o momento. Me perdoem essa ignorância.

04 maio 2013

CHECKLIST: SIMPLES E EFICIENTE


Podemos chamá-lo de Lista de Verificação, Inspeção de Pré-Uso ou Checklist. A eficiência desta simples ferramenta é impressionante.

Ferramenta simples e eficiente para evitar lapsos de memória
Não é de hoje que admiro o Checklist como uma forma de tornar tão eficiente o trabalho a ser realizado. Em muitas oportunidades ele foi capaz de me auxiliar nas tarefas mais comuns. Foi fazendo uso do Checklist que eu nunca mais esqueci de alguma coisa na saída para as férias.

Mas isso não é nada! O Checklist pode salvar pessoas também, ou evitar falhas graves quando se depende da memória em tarefas vitais. Foi o que ficou evidente quando recentemente acabei de ler a obra de Atul Gawande, cirurgião geral e professor de Medicina e Saúde Pública da Universidade de Harvard. Em “Checklist: como fazer as coisas benfeitas”, que possui o título original “The Checklist manifesto”, o Dr. Gawande observa que as falhas humanas ocorrem não por incapacidade intrínseca, mas por ignorância e inépcia. Segundo ele, falhas evitáveis são comuns e persistentes, para não dizer desmoralizantes e frustrantes, em muitas áreas da atividade humana. E o maior problema é o volume e a complexidade de nossos conhecimentos, que superam nossa capacidade individual de aplicar seus benefícios de forma correta e segura. Desta forma, se faz necessário um método para superar estas falhas, algo que se baseie na experiência e no conhecimento acumulado, algo que compense nossas deficiências humanas. Ou seja, essencialmente o esquecimento. É o que o Dr. Gawande afirma na introdução de seu livro: “Já dispomos deste método, embora ele pareça quase ridículo por sua simplicidade e até sem sentido para quem passou anos desenvolvendo meticulosamente qualificações e tecnologias cada vez mais avançadas. Estou falando do checklist.”

A obra de Atul Gawande destaca as
vantagens do uso do Checklist

Analisando ainda o esquecimento como parte da deficiência humana em muitas atividades profissionais, Atul Gawande também destaca as muitas cirurgias realizadas em lados opostos de pacientes por falhas na hora do procedimento. E se pode perguntar: “Será que naquele momento, com uma equipe a postos não há quem possa revisar ou questionar a decisão? Será que um checklist aplicado ali não seria capaz de reverter a decisão  errônea? O Dr. Atul atribui muitos destes erros também à vaidade e ao egoísmo dos profissionais da medicina, que se colocam muitas vezes acima do bem e do mal e resistem à introdução de novidades na área. 

Se bem me lembro estou em contato com o checklist há mais de 15 anos, quando ainda na gestão industrial fiz vários cursos de eficácia gerencial, onde ainda não se falava em Gestão Estratégica e nem Melhoria Contínua. Mas por ter atuado em algumas empresas de porte como Analista de Processos fui me habituando a lidar com certos formulários que facilitavam a análise das atividades operacionais. Lembro de um curso realizado em Curitiba na década de 1990, quando pude desfrutar do conhecimento de um dos gurus da qualidade total, professor Vicente Falconi. Aliás, guardo até hoje um exemplar autografado de seu livro “O poder dos recursos humanos na era da qualidade”. Não tenho certeza, mas creio que ali tomei contato com o checklist.

E desde então pude comprovar sua aplicabilidade e eficiência, não somente na gestão de pessoas e de processos. Mas agora vejo o quanto ele é também eficiente em termos de segurança do trabalho.

Cláudio Duarte destacou a eficiência do Checklist nas
inspeções de pré-uso de equipamentos móveis
Outro dia recebi em sala de aula o Claudio Renato Duarte, meu aluno em curso técnico em segurança do trabalho e funcionário do SESMT da Gerdau que, atendendo gentilmente um convite meu, veio falar de equipamentos de movimentação e armazenagem para duas turmas da disciplina de Tecnologia Industrial.  O Claudio é um especialista no treinamento de operadores destes equipamentos lá na Gerdau, até porque sua experiência advém de ter sido também operador dos mesmos. Portanto, fala com conhecimento de causa. E nos imbuímos de um espírito prevencionista ao discutir sobre a importância do checklist, ou o que ele mesmo chama na empresa onde trabalha como “Inspeção de Pré-Uso”, termo mais que correto se pensarmos na aplicação. Estas inspeções são exigidas para todos os operadores da Gerdau, antes de qualquer tarefa com o equipamento móvel no início do turno.

O Dr. Gawande mostra em seu livro a importância do
Checklist em tarefas onde o esquecimento pode ser fatal
Ao aprofundar minha leitura na obra do Dr. Atul Gawande, pude observar que sua pesquisa a respeito da eficiência do checklist não se limitou à área da medicina. Uma grande parcela de seus estudos buscou referencia no setor da aviação comercial. Em certo ponto do livro ele recorda a importância do checklist realizado por comandante e co-piloto na cabeceira da pista, antes da decolagem. E enfatiza o quanto foi difícil adotar este mesmo documento em muitos hospitais de centros urbanos mundiais, antes de iniciar cirurgias complexas, justamente por resistência dos profissionais da medicina.


Pois bem, fiquei bastante satisfeito com esta minha última leitura e gostaria de indicar a todos meus leitores a obra do Dr. Gawande. Vale a pena aprofundar mais o conhecimento do checklist, e quem sabe possamos nos tornar mais eficientes e confiantes usando uma ferramenta tão simples. Aliás, quero indicar a meus alunos de segurança do trabalho, para que se tornem mais adeptos do checklist e que possam evitar muitos acidentes de trabalho onde quer que atuem como profissionais competentes e menos falíveis.   

27 abril 2013

SONHAR É BOM! REALIZÁ-LO É MELHOR AINDA!


“Os dias prósperos não vêm por acaso; nascem de muita fadiga e persistência.” Esta frase é de autoria de um dos maiores empresários da história humana, pioneiro da fabricação de automóveis. Seu nome? Henry Ford.
Três expoentes que transformaram o mundo com seus inventos e persistência

“A persistência é o menor caminho do êxito.” Esta também é uma frase de uma das maiores personalidades do cinema mundial. Ator, diretor, produtor, humorista, empresário, escritor, comediante, dançarino e músico britânico, Charles Chaplin se tornou famoso pelo uso da mímica do cinema mudo em seu primórdios.

“Nossa maior fraqueza está em desistir. O caminho mais certo de vencer é tentar mais uma vez.” Esta frase foi pronunciada por Thomas Alva Edison, inventor, cientista e empresário estadunidense que registrou mais de 2.300 patentes de invenções, e que ficou mais conhecido pela concepção da lâmpada elétrica incandescente.

Analisando-se com mais profundidade as frases em destaque, se pode dizer que quem as pronunciou possuía uma coisa em comum, a persistência. Talvez este tenha sido o segredo do sucesso destas pessoas. Isso comprova que para se chegar a algum lugar há muito de esforço, de trabalho e de persistência. Ou seja, o sucesso muitas vezes não se compõe de “imediatismos”, de “modismos”. Basta lembrar que todo o sucesso proveniente deste imediatismo ou de modismos repentinos é pulverizado em escasso tempo. É o que podemos denominar de “efêmero”, ou de “fluído”, como quer o sociólogo polonês Zigmunt Baumann. Para comprovar isso basta lembrar alguns mitos, alguns filmes, algumas músicas ou alguns costumes que tiveram trajetória meteórica em nossas vidas.
Para Lipovetsky, o crédito ao prazer, à felicidade, às novidades e
facilidades materiais são marcas da nossa época


E a moda é feita disso. Lembra o filósofo francês Gilles Lipovetsky, em sua obra “O império do efêmero”, que a partir do século XVIII “o culto heróico feudal e a moral cristã tradicional, que considera as frivolidades como signos do pecado e do orgulho, cedem lugar ao crédito dado ao prazer e à felicidade, às novidades e facilidades materiais, à liberdade entendida como satisfação dos desejos e ao abrandamento das conveniências rigoristas e interdições morais, dignificando as coisas humanas e terrestres de onde sai o culto moderno da moda.” Sendo assim, se justifica a partir desta mudança comportamental da sociedade, uma prestação de culto às coisas do imediato e da moda.

Mas não foi este o pensamento de um outro inventor, não tão famoso quanto aqueles que tratei no início deste texto. Ele se chama Oskar Coester e está bem próximo de nós, “vivinho da silva”, morando ali em Pelotas, com seus 75 anos. (Também quero aqui salientar o quanto nós não valorizamos nossas “personalidades”. Temos uma crença arraigada de que só possui valor o que é importado.) Disse Oskar recentemente em depoimento à imprensa: “Sonhar é bom! Realizar o sonho depois de tantos anos é melhor ainda!” E o reconhecimento da importante obra de Oskar só viria depois de 30 anos, quando na longínqua década de 1970 idealizou um veiculo econômico que pudesse agilizar o transporte de pessoas em pequenas distancias. Observara ele que muitas vezes se levava uma hora e meia numa viagem aérea de Porto Alegre ao Rio de Janeiro, e o mesmo tempo do aeroporto até o centro. Foi isso que lhe despertou a atenção para criar o AEROMÓVEL.
O sonho de Coester se torna realidade depois de 30 anos


Mas a vida de inventor de Oskar Coester não foi tão fácil. Em 1977 iniciou seus testes por conta própria. Em dezembro de 1978 houve um interesse da Empresa Brasileira de Transportes urbanos (EBTU). Finalmente, em marco de 1979 foi assinado um convenio entre a EBTU e a Fundatec para um trecho experimental de 750 metros na capital gaucha, ligando a avenida Loureiro da Silva à Praça da Alfândega. Apesar da avaliação positiva por parte da UFRGS, onde se confirmava que o sistema de propulsão pneumática era tecnicamente viável e na prática apresentava características muito favoráveis, a obra construída permaneceu tão somente relegada a uma pista de testes.

Em setembro de 1982, depois de uma demonstração de sucesso na Feira de Hanover, na Alemanha, onde transportou confortavelmente 19.000 pessoas durante nove dias, uma esperança surgiu no horizonte do inventor,  quando foi construída uma Linha Piloto partindo da Avenida Loureiro da Silva. Mas uma mudança na EBTU cortou de forma abrupta todos os investimentos do projeto.
O que era prá ser um grande projeto, acabou virando um
esqueleto arquitetônico em meio à paisagem da cidade

E a invenção de Coester, por incrível que pareça, teria sucesso longe do Brasil. Em 1988, um grupo empresarial da Indonésia adotou o projeto num trecho de 3,2 km na capital Jacarta. Foram instalados num parque da cidade três veículos compostos de dois carros articulados cada, com capacidade para 300 passageiros e seis estações de passageiros. O sistema é um sucesso e funciona até hoje.

No Brasil, depois de 30 anos da experiência inicial, o sonho de Oskar Coester se torna uma realidade a cada dia. A Trensurb resolveu ressuscitar o projeto da vida do inventor gaúcho. Diz ele:

“É um premio pelo qual eu nem esperava mais. O caminho foi muito tortuoso, muito difícil. Comemos o pão que o diabo amassou. No dia da inauguração vou ter de tomar uma injeção de calmantes.”

Desta história pode-se tirar lições bastante interessantes para nossa vida profissional. E também se deve observar que a construção do sucesso não é tão fácil e imediata. É uma construção que requer muita persistência, tal como mostraram nossos personagens acima. 

 O projeto do Aeromóvel foi assumido pela Trensurb

Fontes Consultadas:
CARNEIRO LEÃO, Igor Zanoni. Reflexões sobre O Império do Efêmero, de Gilles Lipovetsky. Revista Economia e Tecnologia, Abril/Junho de 2007.
Jornal Zero Hora – Ediçao de 11.04.2013 – Inventor do Aermovel realiza sonho de décadas.
www.pucrs.br/aeromovel/historico.php - acesso em 26.04.2013 

19 abril 2013

FRIGORÍFICOS: INSALUBRIDADE REDUZIDA PELA NR36


Os trabalhadores envolvidos em atividades de abatedouros e frigoríficos a partir desta semana poderão contar com uma grande aliada na defesa das boas condições de trabalho. Finalmente foi assinada e publicada no Diário Oficial da União a norma regulamentadora - NR 36 (já disponível em http://portal.mte.gov.br/data/files/8A7C812D3DCADFC3013E228659F43654/NR-36%20(atualizada%202013).pdf), que estabelece cuidados específicos com este ambiente de trabalho, tão agressivo e determinante de inúmeros acidentes graves mutilantes, e outros fatais, além das doenças ocupacionais, em sua maioria provenientes de exposição excessiva ao frio e de tarefas monótonas e repetitivas. Sem levar em conta ainda um sistema gerencial extremamente exigente em termos de metas, e que sempre existiu neste setor.

Eu que já convivi nestas atividades por mais de 20 anos, e cujo testemunho trouxe na edição deste Blog em 1º de março último, numa postagem que teve o título de “Moendo Gente” (http://profjairobrasil.blogspot.com.br/2013/03/moendo-gente.html), numa menção ao documentário de mesmo nome elaborado pela ONG Reporter Brasil. Aliás, para quem quiser se aprofundar um pouco mais nas questões de denúncias de que o setor é alvo, pode acessar uma página de matérias exclusivas em www.moendogente.org.br. A página resgata todo tipo de material do setor, com denúncias e nominação das empresas que mais empregam trabalhadores no setor, tais como a JBS, Marfrig e Brasil Foods (antiga Sadia e Perdigão).
O ritmo intensivo de trabalho é um dos
maiores riscos do setor frigorífico

A indústria da carne é uma das mais rentáveis do país. Para se ter uma ideia dos valores envolvidos nesta atividade econômica, a exportação de carne suína em 2012, segundo a ABIPECS (Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína), foi de 581.470 toneladas, perfazendo um faturamento total de U$ 1.485.058. Já a carne bovina em 2012, segundo a ABIEC (Associação Brasileira das Industrias Exportadoras de Carne), foi de 1.243.610 toneladas, com faturamento de U$ 5.766.552. E a carne de frango não foi muito diferente em termos de volume e rentabilidade. Em 2012, segundo dados do SINDIAVIPAR (Sindicato das Indústrias de Produtos Avícolas do Paraná)  foram exportados 3.920.175 toneladas, e que se transformaram em U$ 7.704.190 de faturamento.  Colocando isso tudo em um quadro demonstrativo teríamos:
  
Os números alcançados pelas exportações do setor impressionam
Apesar de toda a rentabilidade alcançada nos últimos anos, demonstrada pelos números acima, e da posição número um mundial em exportações de carne bovina e de aves, nunca houve uma preocupação e valorização dos trabalhadores deste setor, submetidos constantemente a trabalhos penosos e insalubres. E observem que não estão computados aí os dados do mercado interno, que na medida em que melhora o acesso das classes C e D pelo aumento do poder aquisitivo, também faz crescer a demanda por carnes. 

Estava realmente na hora de a legislação prevencionista contribuir para uma mudança radical na situação destes trabalhadores. O vídeo a seguir é exemplar em mostrar casos de pessoas incapacitadas pelas péssimas condições de trabalho nestas empresas. Observe.

 Funcionários denunciam as péssimas condições de trabalho

Alguns trechos da nova Norma já trazem a preocupação com as doenças ocupacionais relacionadas aos esforços repetitivos. No item “Manuseio de Produtos”, por exemplo, destaca que “o empregador deverá adotar meios técnicos e organizacionais para reduzir os esforços nestas atividades”.  E, em normas regulamentadoras, como tenho salientado aos meus alunos, quando se fala de responsabilidade do empregador, há muito de responsabilidade do próprio TST. Não esqueçamos que o Empregador contrata alguém que possui competência num assunto do qual não tem domínio. Portanto, está explícita também na NR 36 a responsabilidade dos profissionais de segurança do trabalho.

A Norma também enfatiza que devem ser implementadas medidas de controle que evitem que os trabalhadores, ao realizarem suas atividades, sejam obrigados a efetuar de forma contínua e repetitiva movimentos bruscos de impacto dos membros superiores, uso excessivo de força muscular, frequência de movimentos dos membros superiores que possam comprometer a saúde e segurança do trabalhador, exposição prolongada a vibrações e a imersão ou contato permanente das mãos com água.

São muitas atividades passíveis de melhorias neste setor, e que por certo irão trazer também dificuldades aos nossos profissionais da área prevencionista, olhando neste momento pela ótica de nossos alunos de segurança do trabalho. Num primeiro momento, e até mesmo pela proximidade, acredito que o impacto inicial da legislação poderá se dar também nas atividades de açougue e mercearia de redes supermercadistas da capital. Mesmo que a norma faça referencia em sua aplicabilidade para as indústrias de abate e processamento de carnes e derivados. Mas quando estas atividades se fazem presentes nestes ambientes, certamente estes trabalhadores também serão contemplados. Acredito ainda que a chegada da NR 36 seja um prenúncio de novos e bons tempos para estes trabalhadores. 


13 abril 2013

MENTE EMBOTADA, VISÃO ENCURTADA

Cada profissão demanda competências peculiares

Algumas profissões possuem características bastante peculiares e demandam uma série de competências por parte de quem as exerce. Por exemplo, para profissões onde haja necessidade de exposição ao risco com frequência, como bombeiro e policial, é preciso ter coragem e destemor. Imagine estes profissionais em missões para apresar criminosos, como no caso do policial, paralisados pelo medo. Bem como, no caso do bombeiro, em chamado para debelar um grande incêndio, terrificado com a altura das chamas. Sem dúvida, são profissões que requerem uma boa preparação e determinado acúmulo de conhecimentos.

Já, para atuar como músico ou como ator, por exemplo, não se deve possuir qualquer tipo de receio na exposição pública. Tente imaginar um músico que esquece a letra da canção ou erra suas notas ao tocar um instrumento em pleno espetáculo, principalmente quando a grande maioria do público já domina a melodia. Agora, imagine também o ator esquecendo o texto num momento de empolgação geral, e crucial para a conclusão de um ato? Uma falha que pode comprometer todo o desempenho.
 
O embotamento da mente faz com que não
se consiga entender o contexto da realidade
Em todos estes casos há necessidade de uma boa preparação, de uma gama bastante significativa de conhecimentos. Por isso, profissionais de destaque são aqueles que fazem com que suas mentes jamais sofram o que se chama de “embotamento”. Ou seja, estão sempre abertos a todo tipo de conteúdo, cientes de que há um conhecimento universal capaz de fazer com que se contextualize uma série de realidades através dele.

Na teoria administrava moderna costumeiramente denominamos “zona de conforto” o espaço em que nos sentimos bem, e de certa forma confortáveis. Quem decide não sair da “zona de conforto” também não conhece além dela. E quando estas pessoas são chamadas a deixar esta zona, demonstram uma enorme resistência, pois o universo do desconhecido traz a elas um grande receio. Ficam se perguntando: “Será que eu serei capaz de viver num espaço desconhecido até então?” Desta forma, preferem resistir ao desconhecido, e fazem mais, criticam quem ousa lhes desafiar ou desfazem dos que aceitam o desafio.

Para nós que lidamos com educação há bastante tempo, é comum reconhecer alunos e alunas com este perfil. Ainda que estes sejam uma minoria, pois grande parte aceita o desafio de buscar novos conhecimentos, e entendem que o universo é muito maior do que aquilo que estavam acostumados no âmbito particular ou doméstico, antes de buscarem a Escola.
 
A interdisciplinaridade faz com que os conteúdos se mesclem
em benefício de um conhecimento mais abrangente
O currículo escolar é composto de inúmeros conhecimentos que se intercambiam. É o que a pedagogia costuma reconhecer como “interdisciplinaridade”, uma característica da educação que faz com que os conteúdos conversem entre si. E em qualquer curso que busque a formação integral de alunos, profissionais de destaque no mercado de trabalho, estes conteúdos estarão presentes, dialogando e fazendo com que se tenha uma visão global da realidade, ao invés de um certo “embotamento” da mente. Aliás, é este embotamento que leva muitos profissionais a um “encurtamento da visão” profissional, tornando-os simples copiadores sem qualquer criatividade.

E dentro de nossas escolas técnicas, por vezes me surpreendo com uma minoria que demonstra resistência ao se deparar com conteúdos importantes que se mesclam com a teoria técnica. Como falar tão somente de conteúdos de Segurança do Trabalho ou de Enfermagem sem que se mesclem nesta abordagem conhecimentos de matemática, português, geografia, história, química, física e biologia? Sem contar ainda com alguns conteúdos que permeiam o conhecimento humano, tais como, filosofia, sociologia, antropologia, etc.
 
Comparativamente, a interdisciplinaridade é um
intercruzamento de conhecimentos
Não esqueço de colegas docentes que certa feita se mostraram surpresos com a reação de alguns alunos. Um deles me contou que uma aluna de enfermagem, ao saber que havia uma disciplina de “matemática instrumental” no currículo do curso enfatizou: “Mas eu vim fazer enfermagem porque não gostava de matemática!” Outro, contou-me que um aluno de segurança do trabalho, ao ser solicitado fazer uma redação, disse em voz alta: “Ah! Professor, e eu que pensei que esse ciclo em minha vida já havia se encerrado!” Como se na labuta profissional nunca mais tivessem necessidade de fazer uso destes conhecimentos.

Prá estes que creem que basta tão somente a teoria e a legislação específica na formação profissional para o mercado de trabalho, fica aqui a observação para que evitem “embotar a mente” e, desta forma, “encurtar a visão” profissional. 

05 abril 2013

A EXPLORAÇÃO DO AMIGO CÃO


Alguns assuntos são polêmicos e suscitam
comentários bastantes efusivos
Escrever semanalmente neste espaço, selecionando assuntos que catalisem a atenção dos leitores é um grande desafio. Mas esta tarefa me proporciona um grande prazer, e não vejo sacrifício neste labor. Se assim fosse, não estaria tão comprometido como estou há cerca de seis anos  no ofício de blogueiro. O número de acessos diários tem batido na média de 160 leitores. Só este índice já me impregna de uma grande responsabilidade.

Todavia, alguns assuntos parecem chamar mais a atenção do que outros. Em alguns momentos procuro evitar aqueles de grande polemica, como política, religião e futebol. Mas creio que manifestar minha opinião também é uma obrigação, pois prá quem se atreve a escrever de forma disciplinada em um veículo de divulgação periódica prá um número razoável de leitores, não se deve ter receio de expor a “cara a tapas”. Foi assim que ocorreu quando escrevi há cerca de um ano sobre os ataques frequentes de cães de raças específicas a crianças ( http://profjairobrasil.blogspot.com.br/2012/02/cao-amigo-ou-amigo-cao.html). Tão logo houve a publicação, recebi uma saraivada de comentários contestatórios. Alguns inclusive com palavras bastante contundentes, como a Elisangela Lima, leitora de Goiânia:

“PARA MIM VOCÊ NÃO SABE DA MISSA UM TERÇO. SIM, DEPENDE MESMO DA CRIAÇÃO. NÃO FALO DO PITBUL PQ NÃO CONHEÇO, MAS ROTWAILLER COM CRIAÇÃO E CARINHO É UMA RAÇA DE EXTREMA CONFIANÇA. PASSEIO COM MEU CASAL PELA RUA (COM FOCINHEIRA E ENFORCADOR COMO DIZ A LEI), ELES NEM LIGAM PARA AS PESSOAS, CHAMAM A ATENÇÃO PELO PORTE, MAS A MAIORIA TEM CURIOSIDADE, QUER CHEGAR PERTO.... NUNCA OUVI FALAR DE UM ATAQUE DE ROTWAILLER INVOLUNTÁRIO.. (SÓ QUANDO É MESTIÇO COM OUTRA RAÇA) ENTÃO NÃO EM VENHA COM ESSA DE EXTINGUIR... NÃO É UMA RAÇA DE LABORATÓRIO . EXISTE NO MUNDO ( NA ALEMANHA) HÁ CENTENAS DE ANOS E NÃO É VC COM SUA PETULÂNCIA QUE FARA QUALQUER COISA A RESPEITO. SE FOR ASSIM, VAMOS EXTINGUIR MOTORISTAS BÊBADOS QUE MATAM MUITO MAIS...
 
O abandono e a solidão também foram
motivos para mobilizar as ONGs em prol da lei
Portanto, este é um assunto que suscita muitos comentários e opiniões controversas. Não há como negar que os animais de estimação tem assumido papel importante na vida de muitas pessoas, inclusive com grande participação no setor econômico, fazendo a alegria do bom desempenho dos proprietários de pet shop.

Pois mais vez o tema canino reaparece por aqui, pela polemica provocada por uma lei estadual aprovada na assembleia legislativa neste 26 de março. De autoria do deputado Paulo Odone (PPS), a lei proíbe o aluguel de cães para serviços de vigilância no Estado. Para Odone, a lei traz duplo benefício à sociedade; livra os cães de uma prática cruel e medieval, e ainda, resgata a possibilidade de fornecer emprego digno à cidadãos que buscam uma oportunidade no mercado de trabalho.

O texto da lei prevê ainda que o infrator estará sujeito ao pagamento de multa no valor de 100 UPF’s/RS em valores atuais, cerca de R$1.300,00. Essa multa deve ser multiplicada pelo número de animais que possuir. Também fica definido que os custos referentes ao recolhimento e encaminhamento para atendimento médico veterinário serão de responsabilidade do infrator.
O empresário Flávio Porto teve a ideia de utilizar
cães como seguranças patrimoniais

Embora eu tenha feito pesquisa sobre denúncias em relação às empresas que utilizavam cães como “funcionários de segurança patrimonial”, nada encontrei nos periódicos locais. Mas lembrei-me de uma empresa que por diversas vezes encontrei nas ruas de Porto Alegre, transportando cães em minúsculas gaiolas acomodadas na carroceria de pequenas caminhonetes pickups. Sempre achei uma grande tortura a esse animais, e por causa disso, marquei o nome da empresa.

A PROTECÃES é uma empresa criada pelo adestrador gaúcho Flávio Porto, e que foi motivo de reportagem da Revista Exame, edição número 20 de agosto de 2009, referendando-a como um grande exemplo de sucesso empresarial. Em um trecho a entrevista destaca:

“Em 2008, a Protecães faturou 20 milhões de reais -- uma receita dez vezes maior do que a obtida apenas três anos antes. Construtoras à procura de proteção para canteiros de obra e shopping centers estão entre alguns dos principais clientes. O grande salto de crescimento aconteceu depois que Porto conquistou as operadoras de telefonia celular, que encontraram na cachorrada uma alternativa para proteger torres de transmissão muitas vezes situadas em locais de difícil acesso, como no alto de morros ou no meio de terrenos desocupados. "As telefônicas fizeram a Protecães deslanchar", diz Porto.

Prá quem quiser ler a reportagem da revista Exame na íntegra, basta acessar (http://exame.abril.com.br/revista-exame-pme/edicoes/0020/noticias/caes-aluguel-494512).

O anúncio da Protecães tenta amenizar a exploração dos animais

Vê-se, desta forma, que a busca do lucro importa quase sempre no pensamento maquiavélico de que “os fins justificam os meios”. Ou seja, fazer uso de animais treinados para proteger o patrimônio de outrem pode ser um meio interessante de acumular riqueza, mesmo que estes não possuam a capacidade de reivindicar direitos pelo eficiente trabalho realizado. Sugiro a estes senhores, donos desta grande ideia, que assistam o filme “Planeta dos Macacos – A Origem”. Talvez depois de assistirem a película tenham algumas noites de insônia. Ou não.


29 março 2013

SEMANA SANTA: DIAS DE REFLEXÃO


Um feriado de Semana Santa como este pede uma escritura de algo mais
A Sexta-Feira Santa relembra o sofrimento de Jesus Cristo
ameno, mais voltado à reflexão de nossas atitudes, de nossas ações. E quando se trata de reflexão religiosa nestes dias, no nosso mundo ocidental, de grande influencia da religião cristã, não há como deixar de lembrar as agruras sofridas por aquele que foi seu maior propagador, Jesus Cristo. A Sexta-Feira Santa, principalmente, é reservada para relembrar a chamada Via Crucis, onde ele teve de carregar a cruz na qual seria pregado e sofreu inúmeras humilhações, segundo contam os evangelistas em seus relatos.

A Crucificação ou crucifixão foi um método de execução cruel utilizado na Antiguidade e comum tanto em Roma quanto em Cartago. Abolido no século IV da era cristã, por Constantino, imperador romano que viveu entre 227 e 337, o método consistia em torturar o condenado e obrigá-lo a levar até o local do suplício a barra horizontal da cruz, onde já se encontrava a parte vertical cravada no chão. De braços abertos, o condenado era pregado na madeira pelos pulsos e pelos pés e morria, depois de horas de exaustão, por asfixia e parada cardíaca (a cabeça pendida sobre o peito dificultava a respiração).

Muitos diretores de cinema se dedicaram a resgatar o drama da Via Crucis desde que a “sétima arte”, como é considerada, surgiu como meio de entretenimento popular. Uma das últimas películas trazidas pelo cinema foi “A
Mel Gibson dirigiu "A Paixão de Cristo"
Paixão de Cristo”, com a direção de Mel Gibson e tendo no elenco James Caviezel no papel de Jesus Cristo. Assim que foi lançado, o filme suscitou várias críticas, inclusive a de exagerar no traumatismo do Cristo crucificado, com cenas de tortura nunca antes tão explicitada. Todas as passagens da Via Crucis trazem cenas de verdadeiro horror, tais como aqueles que ficaram conhecidos nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, com o sacrifício do povo judeu.

Por tudo isso, a Sexta-Feira Santa sempre foi um dia cheio de simbolismos. No meu tempo de adolescente era bem diferente, com mudança de comportamentos tanto de adultos quanto de crianças. Não se podia várias coisas. Não se podia escutar música alta, não se podia dar risadas, não se podia fazer festas, não se podia realizar trabalhos pesados, etc e tal. Lembro-me bem, que na Sexta-Feira Santa as estações de rádio tocavam músicas sacras e eruditas durante todo o dia. Reza ainda a tradição cristã que não se deve comer carne vermelha e somente a carne de peixe é permitida neste dia. Sem contar ainda a proibição de manter relações sexuais.  

Ainda na Sexta-Feira Santa era costume das famílias saírem de manhã bem cedo, antes de clarear o dia, a recolherem a macela nos campos orvalhados, porque segundo a tradição cristã, as gotículas são consideradas benção de Deus sobre a planta que depois pode ser utilizada como medicamento para vários males.
A macela pode ser considerada um símbolo da época

Nas igrejas neste dia, é comum uma celebração litúrgica de acordo com o rito romano, onde ocorre a reprodução das quinze estações da Via Sacra. Momentos marcantes são lembrados: aquele primeiro momento em Jesus é condenado à morte, a quarta estação onde Jesus encontra Maria, sua mãe, a quinta estação onde Simão ajuda Jesus a carregar a cruz, a sexta estação onde Verônica enxuga o rosto de Jesus, a oitava estação onde Jesus consola as mulheres de Jerusalém, a décima estação onde os soldados lhe tiram as vestes, a décima primeira onde ele é pregado na cruz, a décima segunda em que ele morre crucificado, a décima quarta em que Jesus é sepultado e, finalmente, o momento glorioso da ressurreição na décima quinta estação. O momento da ressurreição é considerado pelos cristãos o mais importante, pois é o momento em que se cumpre aquilo que Jesus Cristo prometera em todas as suas pregações, e que faz com que os seguidores do Cristianismo renovem a cada suas esperanças de que a vida não é concluída com a morte como conclusão da jornada terrena.

Mas no século XXI os ritos cristãos e outros costumes de antigas épocas tem sido muitas vezes superados pelos apelos da sociedade pós-moderna.
Hoje em dia as festas acontecem independentemente das datas e dos feriados simbólicos
O período desde a Sexta-Feira Santa até o Domingo de Páscoa, como tantos outros, é considerado tão somente mais um feriado, quando muitas famílias se deslocam até o litoral ou a serra para desfrutarem de um descanso. A colheita da macela na madrugada da sexta-feira poucos adeptos já possui, até porque há um grande risco de se apanhar nas beiras de rodovias touceiras e arbustos contaminados pela poluição do óleo diesel e da borracha de pneumáticos. O que antes podia ser considerado um medicamento pode ser um veiculo de contaminação antes de mais nada. Quanto às festas, ocorrem a qualquer dia e hora, tanto na sexta quanto no sábado e quiçá, na segunda, mesmo que não seja feriado. E a música que deveria neste dia ser mais contemplativa e de estilo sacro, hoje é o pagode ou funk, como esta que ouço agora na vizinhança onde moro e que fala de um tal de “lek, lek, lek”, cujo autor nem imagino quem seja. Pois é! Reconhecidamente são outros tempos. 

22 março 2013

PORQUE ME GUSTA LOS HERMANOS DE ARGENTINA


O futebol é onde mais se observa a rivalidade de
Brasil x Argentina
Nossas relações com outras pessoas são marcadas por simpatias ou antipatias, e depende de cada um de nós. Há pessoas que nos parecem simpáticas desde o primeiro contato, e que, por isso, desenvolvemos um apego maior e facilidade de relacionamento. Outras, por uma questão de avaliação precipitada e eivada de preconceitos, não damos sequer a chance de aproximação. É muito comum ainda nos deixarmos levar também por estigmas que nos são impingidos por outras pessoas ou por um modismo popular.

Assim aconteceu comigo tempos atrás, com relação aos nossos irmãos fronteiriços: argentinos, uruguaios, paraguaios, chilenos e tantos outros. Desde cedo ouvia piadas e outras bravatas sobre eles, mas principalmente com relação aos argentinos. Na medida em que me aprofundei em conhecer essa realidade, tomei consciência e pude me despir destes preconceitos. Na verdade, há anos Argentina e Brasil disputam uma liderança na América do Sul, e a história demonstra que em vários momentos ocorreram alternâncias nesta concorrência. Este na verdade é o grande motivo para as comparações e uma moderada beligerância.  

Nem a escolha do Papa Francisco I escapou das
piadas entre os moradores dos dois países
Não é de hoje que acirradas disputas ocorrem em todos os campos onde brasileiros e argentinos se fazem presentes, seja na esfera econômica, política ou social. A Argentina é o terceiro maior mercado para os produtos brasileiros, depois dos Estados Unidos e China, e a recuperação econômica do país aumentou as exportações brasileiras nos últimos meses. Foi justamente isso o que levou o governo argentino a reagir e a impor restrições a produtos brasileiros.

Todavia, no âmbito mais doméstico, digamos assim, brasileiros e argentinos costumam travar disputas e comparações que demonstram uma concorrência de egos e vaidades pessoais, como a grande maioria de todos nós. Basta ver que o resultado do conclave do Vaticano já foi motivo de inúmeras piadas. Uma que recebi recentemente pelas mídias sociais dizia que, depois de Messi como “melhor do mundo” e a escolha de um “papa argentino”, agora só faltava eles ganharem a Copa de 2014 no Brasil. E sem contar a velha comparação entre Maradona e Pelé, que já rendeu muitas “farpas”, principalmente para a imprensa esportiva.

Mas nada disso foi capaz de impedir que eu admirasse nossos “hermanos” desde cedo. Sempre fui um grande admirador da cultura argentina, essencialmente de sua música e seus costumes. Também sou um grande admirador do idioma ali falado. Houve um tempo em que eu cantava e decorava letras de milongas e zambas argentinos e os traduzia para entender do que falavam. Até hoje sou um fã ardoroso das músicas de Mercedes Soza e das composições por ela interpretadas, como "Gracias a La Vida" e "Volver a los 17", em parceria com Milton Nascimento. Recentemente descobri "una otra cantante argentina" com muito talento, chamada Soledad Pastorutti. Uma voz inigualável e que faz bastante sucesso por toda a América do Sul.



Aliás, na década de 1990, trabalhando em uma empresa em Londrina, norte do Paraná, tomei um maior contato com o idioma espanhol, ao me tornar um interlocutor entre a direção da empresa e um importador localizado em Punta Arenas no Chile, para onde exportamos vários de nossos produtos. Na oportunidade tomei a iniciativa de fazer um curso de Espanhol que me facilitou bastante essa tarefa. Assumi a responsabilidade de correspondências e contatos telefônicos com a empresa de importação chilena, com uma grande dificuldade inicial e que aos poucos consegui superar.
Prof. Daniel fala para alunos da Escola Factum

Foram estas experiências e a admiração nutrida pelo povo argentino que me possibilitaram o contato e a aproximação com o Prof. Daniel Mainero em 2008, quando iniciamos esta parceria de que tenho muito orgulho e tantas vezes referido aqui, como em outubro de 2009 (http://www.profjairobrasil.blogspot.com.br/2009/10/uma-visita-muito-especial.html). Nesta data o Prof. Daniel esteve em no Rio Grande do Sul participando de atividades em várias escolas. E depois de interagirmos inúmeras vezes desde então, neste março de 2013 tive a felicidade de recebe-lo mais uma vez, agora em “vacaciones” com sua esposa para desfrutar de uma jornada turística no Estado.

Prof. Daniel e esposa visitaram Gramado na Serra Gaúcha
Ficou hospedado em hotel no centro de Porto Alegre e visitou inicialmente alguns pontos turísticos da capital e viajou até Torres para conhecer uma de nossas mais belas praias. Depois, convidei-o para conhecer Gramado e Canela, onde estivemos juntos desfrutando uma “Sequencia de Fondue”, numa sexta-feira com clima de inverno e a presença de nevoeiro característico do inverno em final de verão. Parecia que tudo havia sido preparado para a ocasião.

Durante a semana ainda, Daniel compareceu na Escola Factum atendendo a um convite meu, onde fez parte de uma Mesa Redonda para alunos do curso técnico em segurança do trabalho, discorrendo sobre a realidade profissional na Argentina. Foi um momento de grande aprendizado para todos nós.

Deixando de lado as disputas e vaidades pessoais, que por vezes acometem a “nosotros”, gostaria de enfatizar o quanto esta relação de parceria docente, e principalmente de uma grande amizade, me faz reconhecer que cada vez mais “me gustan los hermanos”.  Valeu Daniel – un saludo. 

16 março 2013

POR QUE ENTENDER O COMPORTAMENTO HUMANO?


O comportamento é resultado de alguns fatores.
O comportamento humano sofre inúmeras influências. E a mudança de atitudes ou de comportamento possui relação direta com alguns fatores. De acordo com o psicólogo e psicoterapeuta Rogério Martins, são cinco os fatores que podem influenciar nosso comportamento. A saber:

   a)   Antropológico ou cultural - Fator relacionado a questão de cultura de um povo ou grupo social. Por exemplo, as pessoas que frequentam uma determinada igreja tem hábitos semelhantes quanto a vestimenta, atitudes e comportamento em geral. Pessoas que mudam de religião tendem a assumir novas posturas exigidas ou recomendadas por este novo grupo.
      
   b)  Socioeconômico - Pessoas que moram em locais mais pobres ou ricos tem, em geral, características mais semelhantes entre si. É comum termos notícias de pessoas que se tornaram ricas de forma rápida e passaram a agir de modo diferente com seus amigos, parentes etc.

  c)   Biológico ou Fisiológico - Está relacionado ao físico. Um exemplo clássico é a mulher grávida. A alteração hormonal proporcionada pela gravidez gera em algumas mulheres alteração no comportamento. 

A médica Thauane Ferreira foi flagrada registrando
o ponto dos colegas de forma irregular.
   d)  Ambiental - Tem a ver com o local onde as pessoas moram, trabalham, vivem. Estudos comprovam que cidades onde há maior incidência de sol as pessoas tendem a agir de modo mais alegre, receptivo e espontâneo. Locais mais frios, com pouca incidência de luz natural na maior parte do tempo faz que seus habitantes tenham mais comportamentos sóbrios, depressivos e individualistas.

   e)   Psicológico - Está relacionado ao estado emocional das pessoas, modo como foram criadas e tratadas desde a infância até o momento atual. Pessoas que só receberam elogios tendem a não ter noção dos limites. Aqueles que na maior parte do tempo foram criticados por parentes, amigos, professores e outras pessoas tendem a desenvolver uma baixa autoestima.

Destaca Rogério Martins que estes fatores não são definitivos, mas certamente apontam alguns caminhos para que se entenda a variedade de comportamentos do ser humano.

Mas porque busquei este assunto para a edição desta semana do Blog? Por um motivo especial, minha preocupação com o pouco caso que grande parte dos alunos e alunas do curso técnico em segurança do trabalho fazem do conteúdo de psicologia e ética. Um conteúdo que se faz extremamente importante e necessário na formação de profissionais prevencionistas.

A importância de agir com ética na profissão também
deve ser ensinado nas escolas.
Como entender um comportamento inadequado de trabalhadores durante as atividades profissionais? Por que o trabalhador submetido a situações de crise no ambiente doméstico está suscetível a acidentes de trabalho? Que atitude se deve tomar num momento de conflito com funcionários que se recusam a adotar uma postura segura no ambiente da empresa? Estas são situações para as quais o técnico em segurança do trabalho deve estar preparado, pois vai conviver com elas inúmeras vezes.

E não somente para estas situações serve o conteúdo curricular de psicologia e ética. Não se deve esquecer de quanto o técnico de segurança do trabalho deve ser um profissional ético, pois seu exemplo de comportamento, essencialmente no tocante ao comportamento prevencionista, serve de modelo para a maioria dos trabalhadores. E como modelo, deve permear por atitudes coerentes no que fala e no que faz.
   
Esta semana uma noticia chamou minha atenção para a importância deste conteúdo curricular nos cursos de formação destes profissionais. A médica do SAMU de Ferraz de Vasconcelos, município na região metropolitana da capital paulista, Thauane Nunes Ferreira, foi presa em flagrante registrando o ponto de colegas fazendo uso de dedos de silicone com impressões digitais. Segundo ela, fazia estes registros obedecendo a ordens do coordenador do SAMU, Jorge Cury.

Uma análise a grosso modo do caso, mostra a importância do compromisso ético dos profissionais que lidam com a saúde, pois em grande parte servem de exemplo para os que os cercam. Mesmo que a médica presa em flagrante delito, tenha sido orientada por sua chefia imediata para tal tarefa, deveria ter em mente quais as repercussões e consequências de tal atitude. E isso só é possível, quando o profissional tem em mente o significado de um comportamento que leve em consideração e ética e a moral.
Uma grande parcela de alunos crê que conteúdos como o
de Psicologia e Ética são irrelevantes na formação profissional.

Não vou aqui fazer reflexões sobre as diferenças entre estes conceitos, pois haveria necessidade de resgatar teses e pesquisas sobre o assunto. Mas tão somente gostaria de chamar a atenção de uma grande parcela de alunos e alunas de nossos cursos técnicos que desdenham de um conteúdo  importante na formação de profissionais íntegros e exemplares: Psicologia e Ética. Se você, aluno ou aluna de cursos técnicos, tem a impressão de que isso é conteúdo prá "encher linguiça", posso afirmar que estão redondamente enganados. Nunca foi tão importante em nossos dias entender conceitos e comportamentos numa realidade que sofre influências das mais diversas.   

Fontes de Consulta: www.saladeterapia.blogspot.com (acesso em 14.03.13)